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Itália quer seus descendentes de volta: o que está por trás do novo projeto “Turismo de Raízes”

Itália quer seus descendentes de volta: o que está por trás do novo projeto “Turismo de Raízes”

A Itália anunciou um movimento nacional que começa a chamar atenção de milhões de descendentes espalhados pelo mundo: o Turismo de Raízes, uma iniciativa que incentiva a reconexão com as cidades, vilas e tradições de onde partiram as famílias italianas.

O projeto foi apresentado no fórum Roots-In, em Matera, e reúne representantes de 11 regiões italianas que buscam fortalecer um vínculo histórico que, ao longo das gerações, se distanciou.

Não é apenas uma ação turística. É uma tentativa explícita de reativar pertencimento, identidade e memória.

Mas o que realmente está por trás dessa iniciativa?

E como isso impacta os milhões de ítalo-brasileiros?

A seguir, um panorama completo e interpretativo sobre o movimento que está recolocando os descendentes no centro da agenda cultural italiana.


O que é o Turismo de Raízes

O programa tem uma missão clara: aproximar descendentes de suas origens familiares.
Isso significa incentivar viagens às pequenas vilas, promover tradições locais, fortalecer laços culturais e movimentar a economia regional através de um tipo de turismo que não é superficial, e sim profundamente emocional.

É um projeto que conecta história, território e pertencimento.
Para a Itália, descendentes não são apenas visitantes. São parte viva da cultura.

O país reconhece que existem mais de 60 milhões de descendentes italianos pelo mundo, sendo o Brasil o maior núcleo dessa diáspora, com cerca de 32 milhões de pessoas com raízes italianas.


O que o programa representa (e o que ele não representa)


É importante destacar que o Turismo de Raízes não altera nenhuma regra de cidadania italiana.
Não é um projeto jurídico. É um projeto cultural.

No entanto, ele revela algo significativo.
Mesmo sem alterar leis, ele mostra como a Itália enxerga seus descendentes e o peso que essa conexão ainda tem dentro da identidade do país.

Afinal, quando um governo incentiva uma viagem que envolve história familiar, memória e origem, ele reforça que o vínculo da descendência continua sendo relevante no cenário nacional.


O conflito que chama atenção


Aqui está o ponto que torna o assunto ainda mais interessante.

Em março, a Itália discutiu medidas para endurecer o reconhecimento da cidadania por descendência.
Meses depois, o mesmo país lança um grande projeto para trazer esses descendentes de volta, incentivando justamente o resgate da origem familiar.

Se a intenção fosse apenas afastar, por que promover um programa que busca exatamente o oposto?
Por que investir em memória, história e vínculos se o objetivo fosse romper com eles?

O paradoxo revela uma verdade profunda sobre a relação entre a Itália e sua diáspora.


A motivação real: reconectar, não restringir


Segundo o governo, o objetivo central é cultural e econômico.
A Itália enfrenta o esvaziamento de pequenas vilas e a perda gradual de tradições locais.
Muitas regiões dependem da presença dos descendentes para manter viva sua herança cultural.

A lógica é simples.
Se essas regiões forem revitalizadas, o país preserva:

  • costumes
  • língua
  • gastronomia regional
  • estruturas históricas
  • e, claro, a identidade italiana

Ao mesmo tempo, o governo reconhece que a cidadania por origem é um direito constitucional e tem mostrado sinais de reconexão com seus descendentes, especialmente os ítalo-brasileiros, que representam a maior comunidade italiana fora da Itália.

Como o país está se preparando

Na prática, o governo está criando um cenário completo para receber descendentes de forma especial.
Regiões estão sendo capacitadas, moradores estão recebendo treinamentos culturais, e agências de turismo já começam a receber diretrizes específicas para estruturar roteiros familiares de origem.

É um movimento que coloca o descendente como protagonista, não como turista comum.

A intenção é que quem chegue na Itália encontre não apenas um destino para visitar, mas uma história para reencontrar.


Os resultados já aparecem


Mesmo antes do lançamento oficial do projeto, o turismo ligado às origens já movimenta números fortes.

Em 2019:

  • 10,4 milhões de viajantes foram à Itália em busca de suas raízes
  • gerando 4,9 bilhões de euros
  • com predominância de jovens entre 25 e 34 anos

Ou seja, o público que a Itália quer reconectar já demonstra interesse real.


O que isso significa para o futuro dos descendentes


O Turismo de Raízes não muda as regras da cidadania, mas revela algo importante:
a Itália valoriza sua diáspora e reconhece que, culturalmente, precisa dos descendentes para manter vivas as suas próprias tradições.

Ao mesmo tempo em que alguns debates políticos tentam restringir direitos, o país mostra outro movimento muito claro: o de acolher, preservar e fortalecer o vínculo com quem carrega sangue italiano, especialmente os brasileiros.

A mensagem implícita é simples.
A Itália pode discutir processos, mas nunca desvaloriza seus descendentes.


Conclusão


O Turismo de Raízes não é apenas um programa de viagem.
É um gesto simbólico e cultural de reaproximação.

Para descendentes brasileiros, significa oportunidade de reconectar história, família e pertencimento.
Para a Itália, significa recuperar sua essência através de quem mantém a cultura viva fora do país.

Uma iniciativa que, de forma silenciosa, mostra que a relação entre a Itália e seus descendentes continua forte, e mais importante do que nunca.